sábado, 15 de janeiro de 2011

Correspondência.


Para o Pequeno Príncipe


Nossa, há quanto tempo... Como vão as coisas no seu pequeno planeta? Aqui, no meu, andam imensamente estranhas – muito baobá para pouca flor, se é que você entende meus simbolismos.

Quem sempre fala de você é aquela ex-miss que vivia chorando por sua causa, lembra? Ela me contou da sua amizade com a Raposa.

Príncipe, como você é meu amigo de infância, não posso deixar de alertá-lo. Cuidado com a Raposa. Ela parece uma coisa, mas é outra. Faz-se de fofa e é uma cobra, uma chantagista.

Quando a conheci, ela disse que não podia conversar comigo, pois não sabia quem eu era. “A gente só conhece bem as coisas que cativou”, ela falou, toda insinuante.
Respondi que, se nós duas nos cativássemos, ela ficaria triste quando eu fosse embora. Foi quando saquei que ela queria ter um cacho comigo, pois a Raposa pegou no meu cabelo – eu estava loira na época – e disse que tudo bem, porque ela olharia os campos de trigo e se lembraria de mim.

Marcamos um encontro para o dia seguinte, às 4. E ela me pediu para chegar às 4 em ponto, dessa forma ela ficaria feliz desde as 3 somente por esperar o momento do nosso encontro. Achei estranho, mas pensei que fosse charme. Não era.

Cheguei 15 minutos atrasada e a Raposa surtou. Falou que nós somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. E perguntou para mim, olhando diretamente nos meus olhos, se eu tinha consciência de que “perder tempo” com o outro é o que faz essa história importante.

Percebeu o tom de chantagem? Ela joga na cara tudo o que faz em nome do outro. Ela deseja afeto, mas o quer como uma responsabilidade de mão única. Porém, também somos responsáveis quando nos deixamos cativar – relacionamentos são vias de mão dupla.

A Raposa exige a certeza de um compromisso com hora marcada, impondo regras à troca afetiva. As regras dela, claro, já que ela quer todo o afeto a favor de seu bem-estar. Chega a ponto de dizer que será feliz porque você virá. Como se a felicidade fosse algo condicionado ao outro, à espera do outro, ao encontro com o outro.

Veja que coisa infantil. São as crianças que precisam de horários certinhos e de associar suas emoções às pessoas com quem se relacionam. Sentindo prazer ou desprazer diante da ausência ou presença da mãe ou do pai ou de quem quer que seja. Na criança, ainda não há um universo interior, entendeu? Quando nós crescemos, temos de conseguir ver o mundo através das próprias perspectivas. Enxergar a beleza de um trigal sem nos lembrar de ninguém.

A Raposa, como uma criança assustada, quer que aqueles que a amam estejam com ela na hora em que ela deseja. Achando que eles são “responsáveis” pela felicidade dela. Ou seja, o outro lhe deve algo por tê-la cativado.
Desde esse dia, não falo mais com ela. E aconselho você a fazer o mesmo. Ela não é flor que se cheire.

Saudades distantes,
Fernanda Young

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Florbela - poetisa portuguesa - a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.


Florbela Espanca trás temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.


Só


Eu tenho pena da Lua!

Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!…

As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas

Só a triste, coitadinha…
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha …

Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua…
E fico a chorar com ela! …

sábado, 1 de maio de 2010

Júlo Cortázar, escritor argentino.



Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão,como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide extamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhando-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogarmos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.



*A maravilhosa descrição feita por Julio Cortázar no capítulo 7 deO Jogo da Amarelinha - o beijo mais arrebatador da literatura.
tradução para o português é de Fernando de Castro Ferro.
**Cortázar declarou sobre sua infância: "Pasé mi infancia en una bruma de duendes, de elfos, con un sentido del espacio y del tiempo diferente al de los demás". - Nascido em Bruxelas criado em Banfield, na Argentina - Cortázar era uma criança bastante enferma e passava muito tempo na cama, lendo livros que sua mãe selecionava.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Respire


Eu quero que você me respire.
Eu vou entrar em você,
Vou entrar nos seus pulmões;
Vou penetrar cada fibra do seu ser.
Eu quero que você me respire.
Eu estarei dentro de você,
Quando tossir serei eu fazendo cócegas em você.
Vou entrar na sua cabeça
Vou acabar com suas noites de insônia
Vou estar em seus sonhos todo o tempo.
Você desejará minha presença em cada um deles.
Eu quero que você me respire.
Vou penetrar sua mente
Eu estarei lá em cada pensamento,
Em cada suspiro,
Em cada devaneio.
Eu quero que você me respire.
Vou chegar em você onde ninguém mais esteve.
Eu quero que você me respire.
Quando sentir dor de cabeça
serei eu...
Mas quando ficar cansado
Eu te dou força,
Quando se sentir triste
Eu te mando lembranças felizes,
Eu te farei feliz,
Eu te dou paz quando for preciso,
Vou estar bem dentro de você.
É só você ... me respirar ...

Gosto do teu gosto


Do teu alvo sorriso,
Da maciez dos seus lábios,
Da voz que sai da tua boca.
Gosto dos teus braços
e de como eles me abraçam.
Gosto da tua firmeza
Do fogo que arde em teu olhar
Gosto da tua força
Do quão frágil sou diante dela.
Gosto da doce sensação de ter-te
e ser tua.
Gosto do gozo de gostar de você.


Chamas da Paixão


Tu que fizeste queimar em meu peito
as chamas da paixão,
a brasa ardente.
Saíbas que as lágrimas que
derramei por ti encharcaram a lenha
onde um dia a paixão ardeu.
É já morta a paixão por ti
nesse peito inundado pelo pranto meu.
E por ti paixão jamais verás arder dentro de mim novamente.



*Foi uma noite difícil quando escrevi isso.

Edmond Rostand - poeta e dramaturgo francês


O Beijo

Um beijo, mas, enfim, que grande coisa é essa?
Jura que de mais perto é jurada, promessa
Mais clara, confissão que quer confirmação;
Ponto róseo no "i" da palavra paixão,

Segredo que se diz à boca em vez de orelha,
Instante do infinito em sussurro de abelha,

Com ressaibos de flor amável comunhão.
Modo de respirar um pouco o coração
E de provar um pouco, à flor dos lábios, a alma!


(Cyrano de Bergerac, act lll, século lX)
Tradução: Ricardo Gonçalves.

Sua obra máxima, a peça Cyrano de Bergerac, que estreou com estrondoso sucesso em 1897, em Paris, no Théàtre de la Porte-Saint-Martin.